O Passe
"O passe é um símbolo do jogo coletivo e da vida comum". - Tostão
Nesse texto, te convido a enxergar o passe além da questão técnica e motriz. Vamos ver que a ação do jogo está carregada de significado, mesmo que por vezes desconsideremos isso.
Joguei futsal dos meus 7 aos 21 anos. Passei por muitos clubes. Longe de ser craque, mas joguei em um bom nível e em bons times. Foram 14 anos de inúmeras experiências, muitas derrotas, algumas vitórias, poucos títulos. Como atleta fui a pessoa que valorizava o passe de gol na mesma proporção do gol. Me sentia satisfeito por encontrar espaços difíceis de serem achados, ou pelo simples fato de permitir ao outro que marcasse, porque no final esse gol seria nosso. Sempre tive muito claro esse sentimento. E talvez por isso não tenha marcado muitos gols durante a trajetória. Lillo diria que eu era um jogador “sustentável”, pois satisfazia minhas necessidades sem diminuir as oportunidades dos que jogavam comigo.
Não sei explicar muito bem porquê, mas sempre tive prazer em executar passes e cuidado em relação a eles. O que quero dizer com isso? Quero dizer que a forma como o passe chegaria ao pé do meu companheiro era algo que eu considerava sempre nos instantes que antecediam e se seguiam a execução. Provavelmente, já naqueles anos de maneira inconsciente, já tivesse entendido o significado dessa ação.
O Barça de Pep
Os anos se passaram. E com eles mudei. Passei de atleta à estudante de Educação Física (embora nunca tenha deixado de ser estudante). De estudante à treinador de futebol. Numa parte desse caminho que sigo ainda hoje, cruzei com umas das maiores equipes que o nosso jogo já viu: O Fútbol Club Barcelona do treinador Josep Guardiola i Sala.
La se vão praticamente 13 anos desde a saída do treinador da equipe catalã, mas a memória e a internet me permitem voltar de tempos em tempos ao que como disse, foi a melhor equipe que vi jogar…
Lembro-me bem das sensações que ver aquele time me despertavam. Em primeiro lugar era impressionante assistir a forma como dominavam o jogo. Já se sabia antes mesmo de começar que teriam um percentual esmagador de posse de bola em comparação ao adversário e provavelmente muito mais chutes à gol (embora possa significar pouco no placar final, mesmo não sendo o caso se tratando dessa equipe). Pensava também como deveria ser ruim jogar contra aquele time, não só por praticamente não encostar no objeto mais desejado do jogo, a bola, mas por ser espremido mentalmente por 90 minutos. Era quase desumano. Correr, correr, correr. “recuperar” a bola e voltar a perder pouquíssimos segundos depois. Correr mais alguns minutos. Conseguir “recuperar” novamente. Pronto! agora vamos respirar. Engano seu! Perdemos novamente. Inúmeras e inúmeras vezes durante todo o jogo.
Além de Messi, Iniesta, Xavi, Henry, Busquets, Eto’o, Pedro, Villa, entre tantos outros craques, a forma como utilizavam o passe para se organizar despertou em mim uma luz como até então não havia sido desperta vendo nenhum outro time jogar. O passe naquele ambiente era mais do que uma ação motora, o passe era comunicação.
Passe como ferramenta organizativa
Vamos fazer uma breve reflexão antes de seguir. Já se pegou gritando ou estimulando algum jogador para que ele pressionasse imediatamente o rival após a perda da bola? Tentando impulsiona-lo a reagir nesse sentido? Reparou a distância que esse mesmo jogador estava em relação ao restante dos seus companheiros? Talvez o motivo da “falta de atitude” para pressionar não estivesse relacionada a falta de vontade, mas sim a quantidade de passes prévios que a equipe trocou antes da perda. Quero dizer, que uma vez que a equipe troca poucos passes uma, duas, três vezes, perdendo, recuperando, voltando a perder, voltando a retomar, as distâncias entre os jogadores aumenta, e consequentemente a organização e as referências vão se perdendo. Tornando difícil reter e recuperar a bola.
Esse é um exemplo que corrobora com a ideia de que jogamos todo o tempo, e não atacamos ou defendemos.
Mas, voltando ao que estávamos falando. O passe promove tempo. No futebol, o “tempo” refere-se à capacidade de controlar o ritmo de jogo, algo essencial tanto em momentos de disposição, quanto em momentos de recuperação. Equipes que conseguem dominar esse aspecto têm a vantagem de alternar entre momentos de pressão intensa e fases de disposição mais tranquila, o que desorganiza a estrutura rival. Controlar o tempo significa saber quando acelerar o ritmo e a frequência dos passes, por exemplo, aproveitando intervalos, ou desacelerá-lo, para garantir que a equipe mantenha o controle da situação. Essa percepção é fundamental para ditar os momentos de maior pressão ou de maior controle, criando as condições ideais para chegar à baliza adversária ou evitar que o oponente o faça.
O vídeo acima contém um recorte do jogo entre Liverpool x Paris Saint-Germain, válido pelas oitavas de final da Champions League na atual temporada. Nele podemos ver alguns conceitos presentes na equipe do treinador Luis Enrique durante o momento com bola, e que facilitam não só a manutenção da disposição, mas servem também para ordenar a equipe para o momento em que tiver que retomar. Em alguns casos a recuperação rápida após a perda, em outros pelo menos o atraso em relação ao avanço rival. Vemos:
Distâncias de relação ótimas (jogadores em intervenção, ajuda mútua e cooperação);
Sentido de urgência dos jogadores em ajuda mútua em relação ao que dispõe da bola (intervenção);
Repetição de passes para acumular rivais, mas também possibilitar tempo para ajustes de alturas e estrutura;
Pausa para juntar…
Passe, um símbolo social.
Durante muito tempo fui um treinador que valorizava demais os aspectos táticos do jogo (ainda os valorizo, mas os vejo de uma forma diferente), anotava comportamentos preferenciais divididos por situações ou zonas do campo, por exemplo. Tinha aí em cadernos (ainda os tenho guardados) as ações “ideais” para o que eu entendia ser o “jogo ideal”. Tudo muito cartesiano em uma realidade totalmente sistêmica. Com o passar do tempo e consequentemente das vivências e experimentos na própria prática, passei a dar atenção a outras “consignas”, sem desconsiderar a tática, obviamente. Hoje, o que norteia a minha sessão de treinamento, por exemplo, são os valores. E em seguida, impulsionado por esses valores, vem todo o resto.
Como posso falar sobre criação de linhas de passe ou triângulos, sem falar de solidariedade ou espírito de equipe? Como posso falar sobre recuperar a bola o mais rápido possível, se não estimulamos amor e desejo por esse objeto? Aliás, como posso falar sobre recuperar se somos incapazes de perceber a bola como sendo nossa? Pois só recuperamos o que é nosso por direito. O que não é, roubamos.
Em um futebol cada vez mais acelerado e eletrizante, onde os holofotes recaem normalmente sobre os dribles desconcertantes e os gols espetaculares, o passe segue como um gesto silencioso, mas fundamental. Se trata de um ato de conexão. Um bom passe liga indivíduos, cria harmonia em meio ao caos e revela a essência coletiva do jogo. Como disse Tostão, o passe é o próprio futebol.
A beleza do passe está na sua simplicidade aparente e na complexidade oculta. Quando a bola parte de um jogador para outro, há mais do que precisão mecânica, há visão, tempo, intenção e (vinculada ao idioma comum da equipe), sobretudo, um compromisso com o coletivo.
O passe é, em si, uma metáfora para a vida em sociedade. E hoje há um excesso do “Eu” e uma falta do “Nós”, que se reflete no jogo. Há escassez de passe. Não qualquer passe, mas aquele que presenteia tempo. E sobra individualismo. Que tem o seu valor, mas que num mundo coletivo, necessita do todo para “valer” mais. A individualidade excessiva ofusca a capacidade de construir juntos.
Como na vida, o futebol floresce e fortalece quando há empatia, quando alguém está disposto a abrir mão do protagonismo para fazer o outro brilhar. Um passe bem dado é uma demonstração de generosidade, um gesto que revela o entendimento de que o sucesso individual só se realiza plenamente no sucesso do grupo, da equipe.
No futebol formativo, o passe deveria ser um dos pilares da aprendizagem. Não como um gesto técnico, mas como uma ferramenta empática que estimula a consciência coletiva.
Como meu companheiro gosta de receber o passe? ele é destro? canhoto? Quando está perfilado dessa forma gosta de receber a bola assim no pé. Mas quando está desta outra forma, já está me passando a informação que prefere que a bola vá no espaço. Passe. Comunicação silenciosa, com significados invisíveis aos olhos e ouvidos do oponente. É o melhor e mais eficiente recurso comunicativo do jogo.
No Brasil, onde o futebol já foi sinônimo de improviso organizado, o declínio do passe como valor coletivo reflete uma perda maior: o enfraquecimento do espírito colaborativo. Em tempos de desigualdade, a lógica do futebol, como a da sociedade, se deslocou para a busca da vantagem individual em detrimento do bem comum. Resgatar o passe, então, é resgatar um modo de pensar o jogo e a vida: um modo que valoriza a ajuda, a generosidade e a inteligência compartilhada.
O passe, no fim das contas, é uma declaração de intenções. Quem passa a bola afirma que acredita no outro sem precisar gritar para todo mundo ouvir, confia em seu movimento e entende a importância do próximo. Em um mundo que valoriza cada vez mais o brilho individual, talvez o maior ato de resistência, e de beleza, seja continuar passando a bola.
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